Aprendemos que nossa terra é abençoada por Deus, abastarda pela mãe natureza, “terra adorada entre outras mil”, “de um povo heroico”, pacífico, cordial, amoroso e alegre. Aprendemos que temos muitos problemas, mas, isso é normal pois somos jovens, país novo em busca de sua soberania. Nos comovemos com o sofrimento e valorizamos as famílias. Não temos preconceitos, pois somos o país do samba, da mulata bonita e do carnaval.
Esse pensamento massificado tenta representar uma identidade una do povo brasileiro e parece realmente explicar a nossa natureza. É incrível que em uma sociedade tão pacífica a violência seja a principal causa de morte entre os jovens de 15 a 24 anos. Pode parecer contraditório que em um país onde a família é tão valorizada 4 em cada 10 mulheres já sofreram violência doméstica. Aqui, no Brasil, de todas as formas de agressões à mulher 68% vem de seus respectivos companheiros. E é em nosso país sem preconceitos que 70% das vítimas de assassinatos são negros. E na linguagem o adjetivo mulato(a), que vem da mesma raiz da palavra “mula” (animal hibrido, defeituoso e sem possibilidade de reprodução), se enraizou de forma a não se perceber seu verdadeiro significado.
O que acontece então que, mesmo diante de todos estes dados, encaramo-nos como cordeais e não violentos? A explicação vem da forma como lidamos com a violência. Quando chegaram nas costas americanas os portugueses acreditaram ter encontrado o paraíso perdido de “brass”. Dai vem a ideia de que a natureza aqui é mãe e de que o Brasil é de certa forma um pedacinho do paraíso. De lá para cá foram escritas poesias e textos que reafirmam a bondade do povo brasileiro. Textos que mostra nossa história “sem sangue”. Apagaram de nossa história os momentos de guerra e os massacres culturais.
Foram criados os nossos heróis e entre eles o mais destacado é Tira Dentes, ocultando o que realmente aconteceu em nossa história. Desta forma foi criando o que é chamado de identidade nacional ou mito fundador. Para preservar essa imagem, este simulacro, é feita a distinção entre o “eles” e o “nós”. “Eles” são todos os que estão a margem dessa ideia (imagem, aliás a raiz etimológica de ideia é o grego “eidos” – imagem). O “Nós” são todos os que se enquadram no “perfil” brasileiro. É por isso que a presidente Dilma pode ir ao palanque e dizer que os que a vaiaram em nada tem haver com o povo brasileiro, pois este é educado e civilizado, mesmo sabendo que todos que participaram da vaia são de nacionalidade brasileira.
Essa distinção entre o “eles” e o “nós” nos permite separar totalmente o “legítimo” brasileiro, “pacífico” e “cordial”, dos outros, os “marginais safados” e “estúpidos” que só atrapalham o “nosso” povo. Essa máscara serve para ocultar que na realidade a violência é algo que esta em nossas raízes. Não se trata de dizer que a violência é algo localizado, que atinge a poucos, que poucos são os violentos, que quando aumenta de trata de uma “epidemia” (como se fosse algo que surge do nada e que logo some) ou um surto dado graças a migrações (primeiro as do êxodo rural e depois a do nordeste e norte rumo ao sudeste). De fato a violência é uma característica do povo brasileiro. Ela é natural para nós e não nos espanta quando ela é praticada de forma indireta ou sutil. Aliás definição de violência no senso comum se limita apenas ao ataque a propriedade privada e ao físico.
A violência é no entanto, o ato de qualificar como coisa, diminuir e oprimir, qualquer ser humano. Ela pode ser praticada de diversas formas, incluindo a moral e verbal. Para podermos lutar contra a violência devemos abandonar nossos mitos e encarar a nossa verdadeira realidade . A luta inclui parar de ver o “deles” e focar o nosso, ou seja parar de separar eles e nós. Afinal somos mais violentos que cordiais!
PS: Texto publicado anteriormente em:
http://www.publikador.com/sem-categoria/rafaelarcanjo/2014/06/brasileiro-o-cordial-violento/
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