quinta-feira, 10 de julho de 2014

Sexo, este estranho – parte II



Homens saem de suas casas e caminham rumo ao cabaré para ver aquela carioca de “silhouette” um pouco arredondada, mulheres dão a luz à seus filhos em casa, pais negociam o casamentos de suas filhas, revistas pornográficas composta por desenhos, camisolas que na região genital tinham um furo e sobre ele bordado a frase: “Deus abençoe esta casa”. Regras de etiquetas que ensinam as mulheres a desmaiar e os homens a não chorar. Estas são apenas algumas das características da vida intima das famílias brasileiras do Rio de Janeiro dos séculos XVIII e XIX. Pode parecer que isso foi a muitos anos atras, mas, do ponto de vista histórico e cultural estes dois séculos tem uma poderosa influencia sobre nós.


Os vestígios dessa história são vistos ainda hoje quando por exemplo uma garota fica “mal falada” em cidades de interiores por ser promiscua, ou então ao ligar o termo “promiscuidade” a algo ruim, ou quem sabe na nossa dificuldade de lidar com o sexo extra conjugal feminino e a facilidade de aceitar o masculino, ou então em classificar como sexo desnatural o anal e oral, pior ainda é saber números que mostram que no Brasil um homossexual vai ser assassinado a cada 26 horas. Para as mulheres a coisa é um pouco mais complexa, são consideradas objetos de posse dos homens sendo a elas ensinada a submissão e total lealdade, assim como era no caso da mulheres do século 18. O que é isso? Será que somos mesmo um povo liberal e sexual como nos é pregado?


Como povo, os brasileiros não são sexualmente liberais. Isso vai contra o senso comum de que somos sexuais, de que os “gringos” vem para cá por que é mais fácil “pegar” mulher e etc. Na verdade essa ideia é uma ideologia criada no imaginário popular. Temos uma enorme dificuldade de lidar com conflitos sexuais pois em nossa história sexo sempre foi considerado como coisa ruim e pecaminosa. Talvez seja por isso que hoje as pessoas ficam chocadas com os novos rumos que a sexualidade vem tomando.



Mudanças no comportamento sexual



As novas formas do capitalismo, descobertas médicas e as revindicações de direitos das minorias tem quebrado tabus que duraram séculos. Foi Hollywood com seus romances que fixou na mente da população de forma definitiva o amor romântico, onde um ser completa e satisfaz totalmente o outro. Foi também pelos filmes que se começou a naturalizar os divórcios (primeiro por meio de tragédias que matavam um dos personagens seja pai ou mãe e dai o filme mostrava como era possível viver sem um cônjuge e depois de forma mais evidente com os desafios do casamento). Ao som de Elvis Presley o rebolado começou a fazer parte da dança e o rock roll dominou gerações. Todas essas mudanças culturais apontavam para uma mudança na sexualidade, mas, foi sem dúvida a criação da pílula o maior marco da revolução do sexo.


A pílula não apenas quebrou o tabu de que sexo deveria ser feito apenas para a reprodução como também aproximou o sexo heterossexual do homossexual, pois, ambos estavam em busca do prazer. Para as garotas e mulheres a pílula significou o fim do controle machista sobre a reprodução, mostrando que a mulher pode ter autonomia sobre seu corpo. Por outro lado permaneceu ainda as ideias do amor romântico hollywoodiano de exclusividade, de sexo por amor e não por prazer, de um viver pelo outro, de que só se pode amar uma pessoa e a de que quem não casa não é feliz.



Com a expansão do capital norte americano nós alimentamos toda essa cultura e criamos e recriamos nosso imaginário sexual. Porém desde o fim dos anos 90 e agora no início do século 20 há novos ares apontando no horizonte. Vemos que a ideia de amor único e verdadeiro, de paixão avassaladora esta ficando cada vez mais fraca. Vimos que os homossexuais estão cada vez mais conquistando seus direitos (não só os homossexuais, mas, todos os que não são heterossexuais). Vimos surgindo um novo tipo de amor, o do relacionamento aberto, o que é livre e por isso pode amar mais de uma pessoa. As mulheres de hoje cada vez mais querem ter autonomia. Os homens de hoje tem se tornado mais sensíveis.



Claro que essas mudanças levam tempo e talvez ainda demore muito para todas as tendências se mostrarem com força, mas existe uma grande vantagem em nosso tempo. Sexo é questão pessoal e justamente por isso ele é específico para cada um de nós. Cada pessoa encara o sexo conforme seu ponto de vista. A quebra dos tabus e a abertura às escolhas sobre o sexo leva a liberdade individual. Não se trata de acabar com o casamento cristão, destruir o amor romântico, ou estabelecer os relacionamentos abertos como regra, trata-se, porém, de dar liberdade de escolha de vida a cada um. Quem determina que tipo de relacionamento sexual vai ter é você.






PS: Texto publicando anteriormente em:


http://www.publikador.com/cultura/rafaelarcanjo/2014/06/sexo-este-estranho-parte-ii/

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